Não podemos pensar expor aqui, com todos os desenvolvimentos que suporta, a teoria metafísica dos estados múltiplos do ser; temos a intenção de lhe consagrar, quando o pudermos, um ou vários estudos especiais. Mas podemos indicar ao menos o fundamento desta teoria, que é ao mesmo tempo o princípio da demonstração de que se trata, e que é o seguinte: a Possibilidade universal e total é necessariamente infinita e não pode ser concebida de outro modo, já que, ao compreender tudo e ao não deixar nada fora dela, não pode estar limitada por nada absolutamente; uma limitação da Possibilidade universal, posto que deve lhe ser exterior, é própria e literalmente uma impossibilidade, quer dizer, uma puro nada. Agora, supor uma repetição no seio da Possibilidade universal, como se faz ao admitir que haja duas possibilidades particulares idênticas, é lhe supor uma limitação, já que a infinidade exclui toda repetição: não é mais que no interior de um conjunto finito onde se pode voltar duas vezes para um mesmo elemento, e ainda esse elemento não seria rigorosamente o mesmo mais que a condição de que esse conjunto forme um sistema fechado, condição que não se realiza nunca efetivamente. Desde que o Universo é verdadeiramente um todo, ou melhor, o Todo absoluto, não pode haver em nenhuma parte nenhum ciclo fechado: duas possibilidades idênticas não seriam mais que uma só e mesma possibilidade; para que sejam verdadeiramente duais, é mister que difiram por uma condição ao menos, e então não são idênticas. Nada pode voltar nunca para mesmo ponto, e isto inclusive em um conjunto que é sozinho indefinido (e não já infinito), como o mundo corporal: enquanto se traça um círculo, se efetua um deslocamento, e assim o círculo não se fecha mais que de uma maneira inteiramente ilusória. Não há nisso mais que uma simples analogia, mas pode servir para ajudar a compreender que, «a fortiori», na existência universal, o retorno a um mesmo estado é uma impossibilidade: na Possibilidade total, estas possibilidades particulares que são os estados de existência condicionados são necessariamente em multiplicidade indefinida; negar isto, é querer limitar a Possibilidade; é mister, pois admiti-lo, sob pena de contradição, e isso basta para que nenhum ser possa voltar a passar duas vezes pelo mesmo estado. Como se vê, esta demonstração é extremamente simples em si mesma, e, se a alguns custa algum trabalho compreendê-la, não pode dever-se mais que ao fato de que lhes faltam os conhecimentos metafísicos mais elementares; para esses, talvez fosse necessária uma exposição mais desenvolvida, mas lhes rogaremos que esperem, para encontrá-la, a que tenhamos a ocasião de dar integralmente a teoria dos estados múltiplos; em todo caso, podem estar seguros de que esta demonstração, tal como acabamos de formulá-la no que tem de essencial, não deixa nada a desejar sob o aspecto do rigor. Quanto àqueles que se imaginarão que, ao rechaçar a reencarnação, arriscamo-nos a limitar de outra maneira a Possibilidade universal, responderemos simplesmente que não rechaçamos mais que uma impossibilidade, que é nada, e que não aumentaria a soma das possibilidades mais que de uma maneira absolutamente ilusória, ao não ser mais que um puro zero; não se limita a Possibilidade negando um absurdo qualquer, por exemplo dizendo que não pode existir um quadrado redondo, ou que, entre todos os mundos possíveis, não pode haver nenhum onde dois e dois somem cinco; o caso é exatamente o mesmo. Há gente que, nesta ordem de ideias, faz-se estranhos escrúpulos: assim Descartes, quando atribuía a Deus a «liberdade de indiferença», por temor a limitar a onipotência divina (expressão teológica da Possibilidade universal), e sem dispor-se de que essa «liberdade de indiferença», ou a escolha em ausência de toda razão, implica condições contraditórias; diremos, para empregar sua linguagem, que um absurdo não é tal porque Deus o quis arbitrariamente, mas sim, ao contrário, é porque é um absurdo pelo que Deus não pode fazer que seja algo, sem que isso implique o menor atentado a sua onipotência, posto que absurdo e impossibilidade são sinônimos.
Voltando para os estados múltiplos do ser, faremos observar, já que isto é essencial, que estes estados podem ser concebidos tão simultâneos como sucessivos, e que inclusive, no conjunto, não se pode admitir a sucessão a não ser a título de representação simbólica, posto que o tempo não é mais que uma condição própria a um destes estados, e posto que inclusive a duração, sob um modo qualquer, não pode ser atribuída mais que a alguns dentre eles; se quer falar de sucessão, é mister pois tomar cuidado de precisar que isso não pode ser mais que no sentido lógico, e não no sentido cronológico. Por esta sucessão lógica, entendemos que há um encadeamento causal entre os diversos estados; mas a relação mesma de casualidade, se se tomar segundo sua verdadeira significação (e não segundo a acepção «empirista» de alguns lógicos modernos), implica precisamente a simultaneidade ou a coexistência de seus termos. Além disso, é bom precisar que inclusive o estado individual humano, que está submetido à condição temporária, pode apresentar, entretanto uma multiplicidade simultânea de estados secundários: o ser humano não pode ter vários corpos, mas, fora da modalidade corporal e ao mesmo tempo que ela, pode possuir outras modalidades nas quais se desenvolvem também algumas das possibilidades que contém. Isto nos conduz a assinalar uma concepção que se relaciona bastante estreitamente a da reencarnação, e que conta também com numerosos partidários entre os «neo-espiritualistas»: segundo esta concepção, cada ser deveria, no curso de sua evolução (já que aqueles que sustentam tais ideias são sempre, de uma maneira ou de outra, evolucionistas), passar sucessivamente por todas as formas de vida, terrestres e outras. Uma tal teoria não expressa mais que uma impossibilidade manifesta, pela simples razão de que existe uma infinidade de formas vivas pelas quais um ser qualquer jamais poderá passar, posto que estas formas são todas as que estão ocupadas por outros seres. Pelo resto, embora um ser tivesse percorrido sucessivamente uma infinidade de possibilidades particulares, e em um domínio muito mais extenso que o das «formas de vida», nem por isso não estaria mais avançado em relação ao termo final, que não poderia ser alcançado desta maneira; voltaremos sobre isto ao falar mais especialmente do evolucionismo espírita. No momento, somente faremos observar isto: o mundo corporal todo inteiro, no desdobramento integral de todas as possibilidades que contém, não representa mais que uma parte do domínio de manifestação de um só estado; este mesmo estado comporta, pois, a «fortiori», a potencialidade correspondente a todas as modalidades da vida terrestre, que não é mais que uma porção muito restrita do mundo corporal. Isto torna perfeitamente inútil (inclusive se sua impossibilidade não fora provada em outra parte) a hipótese de uma multiplicidade de existências através das quais o ser se elevaria progressivamente da modalidade mais inferior, a do mineral, até a modalidade humana, considerada como a mais alta, passando sucessivamente pelo vegetal e o animal, com toda a multidão de graus que compreende cada um destes reinos; em efeito, há quem levante tais hipóteses, e que rechace apenas a possibilidade de um retorno atrás. Na realidade, o indivíduo, em sua extensão integral, contém simultaneamente as possibilidades que correspondem a todos os graus de que se trata (não dizemos, observe-se bem, que os contém corporalmente); esta simultaneidade não se traduz em sucessão temporária mais que no desenvolvimento de sua modalidade corporal unicamente, no curso da qual, como o mostra a embriologia, passa efetivamente por todos os estágios correspondentes, da forma unicelular dos seres organizados mais rudimentares, e inclusive, remontando mais atrás ainda, do cristal, até a forma humana terrestre. Dizemos de passagem, a partir de agora, que esse desenvolvimento embriológico, contrariamente à opinião comum, não é de maneira nenhuma a prova da teoria «transformista»; esta não é menos falsa que todas as demais formas do evolucionismo, e é inclusive a mais grosseira de todas; mas teremos a ocasião de voltar sobre isso mais adiante. O que é mister reter sobre tudo é que o ponto de vista da sucessão é essencialmente relativo, e pelo resto, inclusive na medida restrita em que é legitimamente aplicável, perde quase todo seu interesse pela simples observação de que o germe, antes de todo desenvolvimento, contém já em potência o ser completo (veremos em seguida sua importância); em todo caso, este ponto de vista deve permanecer sempre subordinado ao da simultaneidade, como o exige o caráter puramente metafísico, e por conseguinte extra-temporal (mas também extra-espacial, posto que a coexistência não supõe necessariamente o espaço), da teoria dos estados múltiplos do ser 1 .
NOTAS: